O sentido da vida
A resposta me veio algum tempo depois: eu não pertencia àquele lugar, ali não era meu mundo, estava só de passagem, contando os dias para ir embora.
Qual é o sentido da vida? É possível passar pela existência sem jamais se colocar essa pergunta, entretanto, no mais das vezes, ela se impõe. Que raios, afinal, estou fazendo aqui? Um psiquiatra famoso está lançando um livro e um curso, baseados nos ensinamentos de Viktor Frankl, o criador da logoterapia, para ajudar as pessoas a responder à inquietante questão. Será que aqueles figurões da República encontraram o seu fim último na farra do uísque patrocinada pelo famigerado banqueiro? A influenciadora digital exibindo joias e roupas de grife, com milhões de seguidores e outros muitos milhões na sua conta bancária terá atingido a felicidade suprema, e se um dia eu ganhar na loteria, encontrarei o êxtase eterno? Os religiosos talvez levantem um dedo acusador e respondam de pronto: é óbvio, estamos aqui para amar a Deus sobre todas as coisas, para conseguir chegar ao céu. Certo, mas na prática, como o fazemos? O amor ao próximo como a nós mesmos, de modo concreto, como se dá?
Estava lendo o romance do italiano Dino Buzzati, “O deserto dos tártaros”, e essas perguntas me tomaram de assalto, obrigando-me a fechar o livro após uma das poucas cenas de suspense até aqui. O livro trata de um tenente recém-saído da academia militar, que é designado a servir em um velho forte no norte do país, lá instalado pela possibilidade de uma invasão setentrional do povo tártaro, mas que na prática já não serve para muita coisa, pois a invasão nunca veio e provavelmente nunca virá. No início ele queria ser transferido, porém acaba acostumando-se com a ideia e lá permanece. Muitos estão na fortaleza há um longo período, justificando suas vidas por um propósito que nunca virá. Eis então, a cena: sentinelas avistam fileiras do que poderia ser o exército inimigo se aproximando; excitação, entusiasmo, os sonhos de glória finalmente poderiam se concretizar. O comandante, no entanto, permanece cético, e demora a dar o comando de alarme. Era, lá no fundo da sua alma, o que mais havia desejado: um combate, a possibilidade de cumprir seu fim último como militar. Impassível, ele reúne os oficiais, ainda descrente da magnífica possibilidade. Até que chega a mensagem vinda do comando-maior: tratava-se de um grupo de demarcadores de fronteiras vindos do reino do norte, não haveria conflito algum. Tudo então retoma o velho ritmo, com o tempo escorrendo de forma aparentemente inútil e sem sentido.
Lembrei-me de imediato, ao ler o capítulo, de quando estava eu próprio no exército, e havia surgido a primeira missão real do batalhão em muitos anos: entrar em uma vila tomada por traficantes para recuperar um fuzil roubado. Ao chegar no quartel, a vibração era a mesma que agora eu imaginava ser a dos soldados na fortaleza imaginária de Buzzati ante a possível invasão tártara; entusiasmo, alegria, alguns gritavam: “missão real, tenente, missão real, é a guerra”. Eu, com os meus botões, não entendia a razão pela qual aqueles militares se alegravam. Ainda jovem, no alto dos meus 25 anos, pensando em entrar na residência, fazer minha carreira, casar-me, ter filhos, não compreendia o motivo daquela felicidade mediante algo potencialmente arriscado, que no limite poderia custar a vida.
A resposta me veio algum tempo depois: eu não pertencia àquele lugar, ali não era meu mundo, estava só de passagem, contando os dias para ir embora. Era, entretanto, o mundo deles, e eles se preparavam, ao menos em teoria, para cumprir justamente aquele propósito. Alguns anos mais tarde, já residente, atendendo pacientes gravíssimos, eu experimentava a mesma satisfação interior. Chegava um doente em péssimas condições, um contexto do qual muitos colegas médicos queriam distância, mas eu, apesar de no exterior estar sério e focado, trazia comigo um sorriso interno. Estávamos todos lá, preceptores, residentes, enfermeiros, por um motivo, um propósito unificador. Ainda que me trouxesse alguma ansiedade, que soubesse ser longo o caminho para adquirir as habilidades necessárias para me tornar proficiente na especialidade, que eu soubesse das muitas horas de estudo, das noites em claro, dos momentos extremos, das conversas difíceis com familiares, havia certa serenidade no meu âmago. De algum modo, aquele lugar me pertencia e eu pertencia a ele.



Sinceridade e clareza... agradável de ler. Gostei!